Cópia de Cópia de Como vencer um debate sobre COVID 19 sem precisar ter razão
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O debate entre o senador médico Otto Alencar e a médica Nise Yamaguchi, ocorrido em maio de 2021, na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da COVID 19, foi um estudo de campo perfeito para a releitura do livro Como vencer um debate sem precisar ter razão, de Schopenhauer, republicado em 2003 pela editora Topbooks, com introdução, notas e comentários do Olavo de Carvalho.
O livro revela didaticamente os principais estratagemas para que um sujeito vença um debate mesmo sem ter razão, certeza ou conhecimento pleno sobre o assunto em questão.
Parte do tal debate, amplamente divulgado em redes sociais, será apresentado a seguir.
“Até porque a senhora deve saber a diferença entre um protozoário e um vírus. A senhora sabe? Qual é a diferença, doutora? Doutora Nise, estou perguntando para a senhora!” questionou Otto Alencar.
A médica por três vezes tentou se esquivar porém o senador insistiu, reduzindo a real intenção das perguntas estratégicas a uma simples questão escolar, dizendo:
“É só a diferença entre um protozoário e um vírus”.
A médica não percebeu que seria liquidada e entrou no jogo do senador respondendo: “Protozoários são organismos celulares, e os vírus são organismos que têm o conteúdo de DNA ou RNA...”
Ela então foi interrompida pelo senador que disse:
“Não senhora, não senhora, tenha paciência. Não é bem assim. A senhora não é infectologista, se transformou de uma hora para outra, como muitos no Brasil, se transformaram em infectologista, e não é assim. A senhora não soube explicar o que é o vírus. Vírus não são nem considerados seres vivos. Portanto, uma medicação para protozoário nunca cabe para vírus”.
Na sequência, ele perguntou a Yamaguchi se ela sabia a que grupo pertence o Covid-19.
“Ao Coronaviridae. Ele é um coronavírus”, respondeu.
Ele seguiu:
“A senhora não sabe, infelizmente. A senhora não sabe nada de infectologia. Nem estudou, doutora”.
O senador também perguntou à médica detalhes sobre o primeiro caso de coronavírus no mundo.
“Diga o número, diga o ano. Pode pegar os livros aí porque a senhora não tem na cabeça, certamente. Não leu, não estudou. E, doutora, de médico audiovisual, este plenário está cansado. De alguém que ouviu e viu, e não leu, e não se aprofundou, e não tem estudado”, disse Otto Alencar.
A médica, nitidamente desconcertada, disse:
“Agora, o senhor me dá licença? Eu preciso responder a uma série de acusações que o senhor me fez”.
E ele continuou:
“Eu não queria constranger a senhora, mas a senhora não sabe responder a absolutamente nada. Eu fiz um testezinho simples com ela. Qualquer menino de segundo ano, terceiro ano. Eu fui professor de química por muitos anos, de biologia. Isso é ‘bê-a-bá’”. "A senhora não tem uma arca de Noé conduzindo a ciência no Brasil", afirma Otto. "A senhora brincou com a saúde do povo brasileiro, falando em imunidade de rebanho, hidroxicloroquina, tratamento precoce", pontuou.
Vou revelar, compilando em itálico trechos do livro, algumas das estratégias utilizadas pelo político.
Estratégia 1: Perguntas em desordem
Quando a disputa é conduzida de modo rigoroso e formal e queremos fazer com que nos entendam com perfeita clareza, então aquele que apresentou a afirmação e deve prová-la procede contra o adversário fazendo perguntas para concluir a verdade a partir das próprias concessões ao adversário. Fazer de uma só vez muitas perguntas pormenorizadas, e assim ocultar o que, na realidade, queremos que seja admitido. Em contrapartida, expor rapidamente a sua própria argumentação, fundada em concessões de outra parte, pois os que compreendem com lentidão não conseguirão acompanhar a discussão e não se darão conta das eventuais falhas e lacunas da demonstração.
Nota: Este estratagema é prática usual e aceita como legítima no debate cultural brasileiro. Algumas de nossas mais brilhantes estrelas intelectuais devem a ele boa parte de seu sucesso. Seu emprego é facilitado pela admiração que, em nosso meio, se dá pela loquacidade e particularmente à capacidade de falar depressa, tido ingenuamente como indício de domínio do assunto.
Ele estabeleceu o ritmo da conversa e concedeu a si a posse da verdade não por fatos mas sim pela forma como falou. A médica não esperava que perguntassem a diferença entre vírus e protozoários e a resposta certa, interrompida precocemente pelo senador, foi utilizada imediatamente como enredo para o segundo estratagema que apresento aqui.
Estratégia 2: Uso intencional de premissas falsas
Podemos também, para comprovar nossas proposições, fazer antes uso de preposições falsas. Então adotaremos premissas que são falsas em si mas verdadeiras ad hominem, e argumentaremos ex concessis, a partir do modo de pensar do adversário.
Argumento Ad hominem: procura-se negar a proposição com uma crítica ao autor. O senador, após assumir que a explicação sobre a diferença entre vírus e protozoários iniciada pela médica é falsa, a ataca dizendo que ela não estudou e que é uma médica áudiovisual (referências às famosas tiazonas do Whatsapp, que se informam por vídeos e áudios recebidos pelo aplicativo) .
Argumento Ex concessis: limita a validade de uma tese aos fatos que reconhece ou àquilo que está disposto a ceder. O senador aceita que vírus não seja um ser vivo mas não aceita que o fato de protozoários serem celulares e vírus serem compostos de RNA ou DNA compreenda parte do conceito perguntado.
Ele usa o mesmo estratagema mais tarde, perguntando o ano da primeira infecção humana por coronavirus. E a médica caiu de novo e ele, novamente, diz que ela nada sabe sobre o tema.
Estratégia 3: Salto indutivo
Se fazemos alguma indução e o adversário admite os casos particulares em que esta se baseia, não devemos perguntar-lhe se admite também a verdade geral que deriva desses casos, mas devemos induzi-la desde logo como se estivesse estabelecida e aceita, pois às vezes ele poderá crer que a admitiu, e o mesmo pode acontecer aos ouvintes, já que recordarão as muitas perguntas feitas sobre os casos singulares, que não podem levar à conclusão.
O senador afirma que um vírus jamais poderá ser tratado com um remédio contra protozoários induzindo os ouvintes a acreditarem que, por isso, os remédios propostos foram utilizados sem qualquer fundamento. O que, de longe, não é verdade. Basta lembrar do uso do composto sulfametoxazol/trimetropina, que é um remédio com efeito contra bactérias, para o tratamento de fungos ou do cetoconazol, um antifúngico com potente efeito de supressão hormonal em casos selecionados.
Estratégia 4: Manipulacão semântica
Quando o discurso é sobre um conceito geral que não tem um nome próprio e que deve ser designado figurativamente por uma metáfora, é preciso escolher a metáfora que mais favoreça a nossa tese.
O senador diz “A senhora não é infectologista, se transformou de uma hora para outra, como muitos no Brasil, se transformaram em infectologista...”.
Com isso dá a entender que, de maneira desonesta, a médica - e todos os demais médicos e não médicos que têm opinião contrária – se comportou formalmente como infectologista mesmo não sendo.
Ele segue com “A senhora não tem uma arca de Noé conduzindo a ciência no Brasil", como se ela se considerasse a única capaz de salvar o povo brasileiro da pandemia.
Estratégia 5: Falsa proclamação de vitória
Um golpe descarado é quando, depois de o adversário responder a muitas perguntas sem que as respostas fossem adequadas à conclusão que tínhamos em mente, declaramos e proclamamos triunfalmente a conclusão que pretendíamos, ainda que de fato não siga as suas respostas. Se o adversário for tímido ou tolo e se tivermos boa dose de descaramento e uma bela voz, este golpe poderá funcionar.
“Eu não queria constranger a senhora, mas a senhora não sabe responder a absolutamente nada. Eu fiz um testezinho simples com ela. Qualquer menino de segundo ano, terceiro ano...”
Como é tola a Dra. Nise e descarado o senador.
Estratégia 6: Uso intencional da mutatio controversie
Se notamos que o adversário faz uso de uma argumentação com a qual ameaça nos abater, não devemos consentir que prossiga neste rumo e chegue até o fim, mas devemos interromper o debate a tempo, sair dele ou desviá-lo e levá-lo para outra questão.
O senador Otto Alencar não permite que a questão seja debatida na linguagem científica pautada pelas técnica da Medicina Baseada em Evidências. Talvez ele, ortopedista com especialização em quadril e político desde 1985, não tenha uma carreira consistente na área de pesquisa e experiência suficiente para debater nos os termos da academia.
Estratégia 7: Falsa reductio ad absurdum
A arte de criar consequências. Da proposição do adversário tiram-se à força, através de falsas consequências e distorções dos conceito, outras proposições que não estão ali contidas e que de fato não correspondem à sua opinião e que são, e, em contrapartida, são absurdas ou perigosas.
Ele disse: "A senhora brincou com a saúde do povo brasileiro, falando em imunidade de rebanho, hidroxicloroquina, tratamento precoce".
O senador resume o trabalho da médica a uma grande ação irresponsável e infundada. Ora, se uma CPI tem como objetivo ouvir, discutir e colher informações para, posteriormente, chegar a uma conclusão final, como que o senador já tem a resposta?
Estratégia 8: Fuga do específico para o universal
Se o adversário solicita expressamente que apresentemos alguma objeção contra um ponto concreto de sua tese, mas não encontramos nada apropriado, devemos enfocar o aspecto geral do tema e atacá-lo assim.
O senador pergunta sobre qual família o coronarivus pertence e, como a médica não responde de prontidão, parte desse ponto específico para afirmar que ela não sabe nada. Ainda que a confusão ginasiana em cima do mnemônico REFICOFAGE (reino, filo, classe, ordem, família, gênero, espécie) não tenha relação alguma com a capacidade de avaliar um estudo em meio a uma pandemia, ele hiperinsufla a confusão da médica e triunfa, mais uma vez, como dono da verdade.
Enfim, o livro descreve mais trinta estratagemas, além dos citados aqui, que se encaixam muito bem nessa tosqueira meio verde, meio amarelada que o Brasil chama de inquérito.
Em seguida ao evento, o presidente do Conselho Federal de Medicina, Mauro Ribeiro, gravou um vídeo repudiando a forma como a discussão foi conduzida. Quanto ao pronunciamento dele, eu não definiria a atitude do senador como misógina visto que a médica Nise Yamaguchi tem, em potencial, todas as ferramentas psíquicas para enfrentar qualquer questão na esfera intelectual. Também não diria que me sinto em casa no Congresso Nacional, por razões óbvias! E, por último, recomendaria aos médicos que lessem Schopenhauer urgentemente antes de se meteram em tanta confusão.
A guerra a ser travada está no campo da linguagem e não no campo da Medicina visto que, frente à uma pandemia desta proporção, o que predomina é a incerteza. Não tenho fórmula mágica para tratar COVID 19 e muito menos algum político para chamar de meu, mas sei que enquanto não dominarmos a linguagem, seremos reféns de quem a domina.

